A tuberculose, doença de forte determinação social, permanece como um relevante problema de saúde pública. O Brasil concentra uma elevada carga da doença, que incide de forma desproporcional sobre populações vulneráveis, como as pessoas em situação de rua. No município de São Paulo, que reúne o maior quantitativo de PSR do país, a condição de vulnerabilidade em que essa população se encontra constitui um obstáculo ao tratamento e à cura da tuberculose.
ObjetivoCompreender a experiência do adoecimento por tuberculose a partir da perspectiva de pessoas em situação de rua.
Materiais e métodosEstudo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo-exploratório. Foram realizados questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas que abordaram questões relacionadas à vida nas ruas, ao conhecimento sobre a doença, seus impactos, a experiência do tratamento e acesso aos serviços de saúde, com pessoas em situação de rua em tratamento de tuberculose no município de São Paulo. As entrevistas foram submetidas à análise de conteúdo de Bardin.
ResultadosDos 24 participantes 23 (96%) eram homens, na faixa etária média de 44,2 anos, cujo tempo em situação de rua foi de 7,1 anos, 5 participantes (20,8%) apresentaram dificuldade para acessar algum serviço de saúde, e outros 5 (20,8%) apresentam alguma deficiência física, visual ou intelectual. A partir da análise das entrevistas, foi possível gerar as categorias "adesão ao tratamento” que apontou as facilidades e dificuldades no uso das medicações, a “compreensão sobre a doença” que destacou a percepção da gravidade, o conhecimento e a falta dele sobre a tuberculose e a “vivência corporal” composta por sinais, sintomas, sequelas e efeitos da medicação. As entrevistas permitiram observar o impacto positivo dos profissionais da saúde e do consultório na rua no processo de tratamento e cura da doença, além disso, o acolhimento social demonstrou auxiliar na saúde mental.
ConclusãoO estudo proporcionou melhor compreensão das condições de vida da população em situação de rua e do impacto dessas no processo saúde-doença a partir da percepção deles. O contexto de ausência de moradia e insegurança alimentar são prioridades de sobrevivência que competem com a continuidade do tratamento e são agravados quando experimentados concomitantemente com a “vivência corporal da doença”. Os achados reforçam que essa população precisa de mais educação em saúde, reforço no acolhimento social e auxílio governamental.
Conflito de InteresseDeclaro não haver conflito de interesses.
Comitê de ÉticaAprovado pelo Comitê de Ética pela UFMG (n° 6946989) e pela Secretaria Municipal de SP (n° 7332146).
Há Financiamento? EspecifiqueSim, o projeto foi financiado por uma bolsa de estudos FAPESP.



