A esporotricose é uma infecção fúngica causada por espécies do gênero Sporothrix, sendo classicamente adquirida por arranhões ou mordidas de gatos infectados, ou pelo contato com solo ou material vegetal contaminados. Embora o envolvimento osteoarticular seja raro, representa a terceira forma clínica mais frequente.
Relato do casoMulher branca, 75 anos, dona de casa e hipertensa. Em março de 2024 com edema, eritema, dor intensa e comprometimento funcional do punho esquerdo, após um pequeno ferimento perfurante. Foi diagnosticada com celulite e tratada com sulfametoxazol/trimetoprima e submetida à drenagem cirúrgica de um abscesso local, sem melhora. Seis meses antes, a paciente foi diagnosticada com síndrome do túnel do carpo no punho esquerdo e submetida a tratamento cirúrgico. Na mesma época, seu marido teve esporotricose, sendo um gato doméstico a fonte da infecção. Oito meses após a lesão inicial, diante de abscesso persistente, foi coletada secreção da lesão para cultura, que confirmou Sporothrix spp. Instituiu-se itraconazol na dose de 200mg/dia por três meses, sem redução da massa subcutânea e com manutenção da drenagem de secreção. Após 11 meses da lesão inicial, a dose de itraconazol foi aumentada para 400 mg/dia, sem melhora em 30 dias (edema persistente, dor intensa e aumento progressivo do nódulo subcutâneo). Exames de imagem revelaram osteíte e destruição óssea em mão e punho esquerdos, confirmando o diagnóstico de osteomielite. A paciente foi internada para tratamento venoso com anfotericina B e drenagem cirúrgica, com boa recuperação. Recebeu alta após 24 dias, com prescrição de fluconazol oral por mais 12 meses, apresentando acentuada melhora da lesão articular, porém com sequelas funcionais moderadas.
ComentáriosEste é um raro caso de esporotricose, com envolvimento osteoarticular em uma paciente idosa, ilustrando os desafios relacionados ao manejo terapêutico. A esporotricose deve ser sempre considerada no diagnóstico diferencial de monoartrite ou poliartrite crônica. O reconhecimento tardio das formas osteoarticulares pode aumentar significativamente o risco de sequelas funcionais permanente. Embora o itraconazol seja o tratamento de primeira linha, ele deve ser prontamente substituído por anfotericina B diante de resposta clínica inadequada. Em pacientes idosos, estratégias de dosagem personalizadas são essenciais para minimizar o risco de reações adversas associadas à anfotericina B.
Conflito de interesseOs autores não têm conflito de interesse.
Comitê de éticaAprovado em 14/10/2025, pelo CEP da Faculdade de Medicina da UFF. CAAE: 92433825.6.0000.5243.
Há Financiamento? EspecifiqueNão há financiamento.



